
“Nos séculos X e XI a religião era universal. Quem se considerasse cristão nascia na igreja católica. Não havia outra. E, espontaneamente ou a contragosto, era necessário pagar impostos a essa igreja e sujeitar-se às suas regras e regulamentos.
Em fins da Idade Média, no decorrer do século XV, tudo isso se modificou. Surgiram nações, as divisões nacionais se tornaram acentuadas, as literaturas nacionais fizeram o seu aparecimento, e regulamentações nacionais para a indústria substituíram as regulamentações locais. Surgem as leis nacionais, línguas nacionais e até mesmo igrejas nacionais. Os homens começaram a se considerar não como cidadãos de Madri, de Kent ou de Paris, mas como da Espanha, Inglaterra ou França. Passaram a dever fidelidade não à sua cidade ou ao senhor feudal, mas ao rei, que era o monarca de toda uma nação.
A igreja era tremendamente rica. Calcula-se que possuía entre um terço e metade de toda a terra – e, não obstante, recusava-se a pagar impostos ao governo nacional. Os reis necessitavam de dinheiro, parecia-lhes que a fortuna da igreja, já então enorme e aumentando sempre, devia ser taxada para ajudar a pagar as despesas da administração do Estado. Havia tribunais religiosos paralelos aos tribunais normais. As decisões daqueles tribunais eram freqüentemente contrárias à decisão do rei. Outro ponto importante era saber a quem cabia o dinheiro de multas e de suborno: à igreja ou ao Estado?
Houve também a dificuldade provocada pelo direito que o papa se arrogava de poder interferir até mesmo nos assuntos internos de um país. A igreja era, com isso, um rival político do soberano.
Existia, portanto, um poder supernacional dividindo a fidelidade dos súditos do rei, e fabulosamente rico em terras e dinheiro; as rendas dessas propriedades, ao invés de serem encaminhadas ao tesouro real, deixavam o país como pertencentes a Roma.
Os muitos abusos da igreja não podiam passar despercebidos. A diferença entre seus ensinamentos e seus atos era bastante grande, e até os mais broncos podiam percebê-la. A concentração do dinheiro obtido por todos os métodos, quaisquer que fossem, era comum. Enéias Sílvio, mais tarde papa Pio II, escreveu: “Nada se consegue em Roma sem dinheiro”. E Pierre Berchoire, que viveu na época de Chaucer, escreveu também: “Não é com os pobres que o dinheiro da igreja é gasto, mas com os sobrinhos favoritos e os parentes dos padres”.
Uma canção do século XIV(**) mostra o sentimento popular em relação a todos os tipos de sacerdotes, de alto a baixo:
Vejo o papa seu sagrado compromisso trair
Pois enquanto os ricos sua graça ganham sempre
Seus favores aos pobres são negados.
Procura reunir a maior riqueza possível
Obrigando os cristãos a obedecer cegamente,
Para que ele possa deitar-se entre roupas de ouro...
Nem são melhores os honrados cardeais,
Que desde a manhã cedo até a noite fechada
Passam o tempo empenhados em imaginar
Um modo de enganar a toda gente...
Nossos bispos também estão mergulhados em pecado semelhante,
Pois impiedosamente arrancam a própria pele,
De todo os padres que por acaso vivam bem.
Por ouro podemos conseguir seu selo oficial
A qualquer ordem, não importa o que diga.
Sem dúvida somente Deus pode pôr fim a suas roubalheiras...
Também entre todos os padres e clérigos menores
Há, sabe Deus, grande número cujas obras e vida diária
Contrariam os ensinamentos que pregam quotidianamente...
Pois, cultos ou ignorantes, estão sempre dispostos
A fazer comércio de todo sacramento,
Inclusive da própria missa sagrada...
É certo que monges e frades exibem com estardalhaço
As regras austeras a que estão sujeitos.
Esse, porém, é o mais vão de todos os fingimentos.
Na verdade, vivem duas vezes melhor do que sabemos,
Como fazem sempre em casa, apesar do voto
E de toda a sua falsa exibição de abstinência...
(**)(J.H.Robinson, op.cit,vol I,pp.375-77)”
(*) texto extraído do livro: História da Riqueza do Homem
Leo Huberman
21ª. Edição, revista
Edit. Guanabara