REPERCUSSÃO SOBRE O DISCURSO DO PAPA SOBRE O ISLÃO
(EXTRAÍDO DO SITE PORTUGUÊS “SAPO”.(17-09-2006) E DO CORREIO DA MANHÃ DE 18-09-2006)
Freira italiana morta a tiro em Mogadíscio
Homens armados não identificados mataram ontem a tiro uma freira italiana e um guarda em Mogadíscio, na Somália, depois de, na véspera, um alto responsável islâmico ter pedido vingança a todos os muçulmanos, na sequência das declarações do Papa Bento XVI sobre o islão.
A religiosa católica foi identificada nos media italianos como irmã Leonella, de 65 anos, enfermeira com mais de quatro décadas de vida e trabalho inteiramente dedicados a África. Missionária da Consolata, vivia há vários anos na Somália, onde ensinava enfermagem no hospital pediátrico SOS, onde foi morta.
Testemunhas e fontes médicas, citadas pela AFP, afirmaram que dois homens armados entraram naquele hospital da parte sul de Mogadíscio, em Huriwa, abriram fogo sobre a religiosa quando esta passava de um edifício do hospital para outro e depois puseram-se em fuga. A zona de Huriwa é, desde Junho, controlada pelos tribunais islâmicos.
O incidente foi classificado por um porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi, como "um acto horrível". E acrescentou: "Esperamos que seja um acto isolado. Nós seguimos com preocupação as consequências da vaga de ódio, esperando que elas não tenham implicações graves para a Igreja no mundo."
No sábado, um dos líderes religiosos da capital somali ligado ao movimento dos tribunais islâmicos, que agora controlam grande parte deste país africano, tinha dito: "Quem ofender o nosso profeta Maomé deve ser morto pelo muçulmano que esteja [fisicamente] mais perto de si. Todas as comunidades islâmicas do mundo devem vingar-se."
Apesar de a associação entre a morte da religiosa e a vaga de indignação espoletada pelas declarações de Bento XVI sobre o islão ter começado logo a ser feita de forma quase automática, o Conselho dos Tribunais Islâmicos - que pretendem restabelecer a ordem na Somália e impor a Charia (lei islâmica) nos territórios que dominam- classificou o incidente como uma "morte bárbara, contrária a todos os ensinamentos do islão".
Bento XVI declarou-se "vivamente entristecido"
"Vivamente entristecido". Foi assim que Bento XVI descreveu o seu sentimento em relação à vaga de indignação e contestação que as suas declarações sobre o islão suscitaram no mundo muçulmano.
Falando na abertura da celebração do Angelus, em Castel Gandolfo, o Papa esclareceu que tais afirmações não "exprimiam de forma alguma [o seu] pensamento pessoal". Foi a primeira vez na história da Igreja Católica que um papa corrigiu publicamente palavras por si pronunciadas num discurso, neste caso há menos de uma semana, na Alemanha.
"Estou vivamente entristecido pelas reacções suscitadas por uma breve passagem do meu discurso na Universidade de Ratisbona, que foi considerada ofensiva para a sensibilidade dos crentes muçulmanos, já que era uma citação de um texto medieval que não exprime de forma alguma o meu pensamento."
Na origem da indignação do mundo muçulmano está o conteúdo de um discurso que Bento XVI fez em Ratisbona, na Alemanha, no passado dia 12. Nele, citava um diálogo, ocorrido algures entre 1394 e 1402, entre o imperador bizantino Manuel II Paleólogo e um erudito muçulmano persa desconhecido.
Nesse diálogo, a certa altura, o imperador diz ao interlocutor: "Mostra-me o que [o profeta] Maomé trouxe de novo. Não encontrarás mais do que coisas más e desumanas, como o direito de espalhar a fé pela espada [Jihad] que ele pregava."
"Neste sábado, o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado da Santa Sé, divulgou uma declaração a este respeito, na qual explicava o significado verdadeiro do meu discurso, o qual era e é um convite para um diálogo franco e sincero, com grande respeito recíproco. O sentido é somente este", disse o Papa, cujas palavras foram transmitidas em directo pela televisão Al-Jazeera, a mais vista no mundo muçulmano.
Além das reacções muçulmanas, a polémica também gerou comentários no mundo religioso e político italiano, com o secretário da Democracia-Cristã, Gianfranco Rotondi, a afirmar que "o paradoxo dos nossos tempos é que justamente este Papa, aberto ao diálogo, é acusado pelo fanatismo islâmico. É grave e a União Europeia, cujas raízes são cristãs, deveria defender este valor." O ministro das infra-estruturas, Antonio di Pietro, disse que "as palavras do Papa foram gasolina sobre o fogo e é justo, pelo menos para a caridade cristã, que tenha pedido desculpa".
Haniyeh, do Hamas, criticou o Papa pela ofensa ao Islão e ao seu profeta Maomé, mas sublinhou que os cristãos residentes na Cisjordania e na Faixa de Gaza, onde foram atacadas sete igrejas desde sexta-feira, “fazem parte do povo palestiniano”.
O ministro do Interior, Said Siyam ordenou às forças de segurança palestinianas para protegerem os templos cristão, na sua maioria da Igreja Ortodoxa, que não acata a hegemonia papal.
Recorde-se que duas últimas igrejas foram atacadas por vândalos na cidade de Tulkar onde residiam três famílias cristãs. Na aldeia de Tubas foi incendiada uma igreja de pedra construída há 170 anos.